u, Pyp chamou:
- Então, vem cá, deixe-me ver.
- O quê? - perguntou Jon. Sapo aproximou-se de lado.
- Sua bunda rosada, o que havia de ser?
- A espada - declarou Grenn. - Queremos ver a espada.
Jon varreu-os com um olhar acusador.
- Todos sabiam.
Pyp sorriu.
- Nem todos somos tão estúpidos como Grenn.
- São, sim - insistiu Grenn. - São mais estúpidos.
Halder encolheu os ombros como que pedindo desculpa.
- Ajudei o Pate a esculpir a pedra para o botão - disse o
construtor e seu amigo Sam comprou as granadas em Vila
Toupeira.
- Mas já sabíamos mesmo antes disso - disse Grenn. - Rudge
tem ajudado Donal Noye na forja. Estava lá quando o Velho
Urso lhe levou a lâmina queimada.
- A espada! - insistiu Matt. Os outros se juntaram ao cântico. -
A espada, a espada, a espada. Jon desembainhou Garralonga
e a mostrou, virando-a de um lado para o outro para que pu-
dessem admirá-la. A lâmina bastarda cintilava à luz clara do
dia, escura e mortífera.
- Aço valiriano - declarou solenemente, tentando soar tão
satisfeito e orgulhoso como deveria se sentir.
- Ouvi falar de um homem que tinha uma navalha feita de
aço valiriano - Sapo declarou. - Cortou a cabeça ao tentar
fazer a barba.
Pyp deu um sorriso.
- A Patrulha da Noite tem milhares de anos de idade - disse -,
mas aposto que Lorde Snow é o primeiro irmão a receber
honrarias por destruir a Torre do Senhor Comandante com
um incêndio.
Os outros riram, e até Jon teve de sorrir. O incêndio que
iniciara não tinha, na verdade, destruído aquela formidável
torre de pedra, mas fizera um bom trabalho em devastar o
interior dos dois andares superiores, onde o Velho Urso tinha
seus aposentos. Isso não parecia preocupar ninguém por lá,
visto que também destruíra o cadáver assassino de Othor.
A outra criatura, a coisa com uma mão só que outrora fora
um patrulheiro chamado Jafer Flowers, também foi
destruída, quase cortada aos pedaços por uma dúzia de
espadas..., mas não antes de ter matado Sor Jaremy Rykker e
mais quatro homens. Sor Jaremy concluíra o serviço de lhe
arrancar a cabeça, mas morrera mesmo assim quando o
cadáver sem cabeça lhe tirara o punhal da bainha e o
enterrara nas entranhas. A força e a coragem não eram
grande vantagem contra inimigos que não caíam porque já
estavam mortos; até as armas e as armaduras davam pouca
proteção. Esse sombrio pensamento amargava o frágil humor
de Jon.
- Tenho de falar com Hobb sobre o jantar do Velho Urso -
anunciou bruscamente, devolvendo Garralonga à bainha. Os
amigos tinham boas intenções, mas não compreendiam. Não
era culpa deles, na verdade; não tinham tido de enfrentar
Othor, não tinham visto o pálido brilho daqueles olhos
mortos e azuis, não tinham sentido o frio daqueles dedos
mortos e negros. Nem sabiam da luta nas terras fluviais.
Como poderia esperar que compreendessem? Virou-lhes as
costas abruptamente e afastou-se a passos largos, carrancudo.
Pyp o chamou, mas Jon não lhe deu atenção.
Depois do incêndio, tinham-no instalado de novo em sua
antiga cela, na arruinada Torre de Hardin, e foi para lá que
regressou. Fantasma estava adormecido, enrolado sobre si
mesmo junto à porta, mas ergueu a cabeça ao ouvir as botas
de Jon. Os olhos vermelhos do lobo selvagem eram mais
escuros que granadas e mais sábios que os dos homens. Jon
ajoelhou, coçou sua orelha e mostrou-lhe o botão da espada.
- Olha. É você.
Fantasma farejou o retrato de rocha esculpida e
experimentou lambê-lo. Jon sorriu.
- É você quem merece a honra - disse ao lobo... e subitamente
lembrou-se de como o encontrara, naquele dia, na neve do fim
do verão. Afastavam-se com as outras crias, mas Jon ouvira
um ruído e se virara, e ali estava ele, de pelos brancos, quase
invisível no meio da neve. Estava sozinho, pensou, longe do
resto da ninhada. Era diferente, e por isso fora afastado.
- Jon? - ele ergueu o olhar. Samwell Tarly estava lá,
balançando-se nervosamente nos calcanhares. Tinha as
bochechas coradas e enrolava-se num pesado manto de peles
que fazia com que parecesse estar pronto para a hibernação.
- Sam - Jon pôs-se em pé. - O que se passa? Quer ver a
espada? - se os outros tinham sabido, sem dúvida Sam
também sabia.
O rapaz gordo abanou a cabeça.
- Em tempos passados fui herdeiro da lâmina de meu pai -
disse ele num tom soturno. -Coração da Morte. Lorde Randyll
deixou-me pegá-la algumas vezes, mas sempre me assustou.
Era de aço valiriano, bela, mas tão aguçada que tinha medo
de machucar uma das minhas irmãs. Deve ser Dickon quem a
tem agora - esfregou as mãos suadas no manto. - Eu... ah...
Meistre Aemon quer vê-lo.
Não era o momento de mudar as ataduras. Jon franziu as
sobrancelhas, com suspeita.
- Por quê? - quis saber. Sam fez uma expressão infeliz. Era
resposta suficiente. - Você lhe disse, não foi? - perguntou Jon
em tom de zanga. - Você disse que me contou.
- Eu... ele... Jon, eu não queria... ele perguntou... ou melhor...
eu acho que ele sabia, ele vê coisas que mais ninguém vê...
- Ele é cego - Jon rebateu energicamente, descontente, - Eu sei
o caminho - deixou